Diário de Bordo


nana

Com 23 anos, baiana e morando em Salvador, nana – que estuda Composição e Regência na Universidade Federal da Bahia – começou seu projeto autoral no final de 2011. Seu primeiro disco “pequenas margaridas” foi lançado em agosto de 2013 e leva o nome do filme de 1966, dirigido por Vera Chytilová, que inspira seu trabalho.

Além de interpretar e tocar, nana também compõe e arranja todas as músicas do seu repertório. No palco se apresenta sozinha e se reveza entre diversos instrumentos, sempre acompanhada de bases eletrônicas pré-editadas por ela mesma. A cantora apresenta um cuidado perceptível com a parte visual de seu trabalho, já tendo lançado três videoclipes.

No Diário de Bordo de nana, será possível acompanhar o processo de produção do videoclipe “as nuvens”, que foi gravado no dia 24 de abril de 2014.

O Processo
Encontro com a cantora
Roteiro
Personagens
Locação
Arte e Figurino
Maquiagem
Fotografia
Produção
Edição
Ficha Técnica
Clipe Final

Clipe Final - Nana

nana – as nuvens

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Encontro com a cantora

nana é uma artista com notável cuidado com a parte visual de sua produção, que pode ser percebido no encarte do seu disco, no site, nos ensaios fotográficos e também nos videoclipes. Sendo assim, sabíamos ­­­que o clipe para a cantora deveria dialogar com as suas referências, ressaltando elementos do seu universo imagético já construído.

Marcamos um encontro com parte da equipe (direção, direção de arte e produção) e nana nos apresentou algumas ideias de roteiros que já havia pensado. Uma das propostas era para a canção “pequenas margaridas”, música homônima ao seu álbum lançado em 2013, para qual propunha uma adaptação de algumas cenas do filme que inspirou o seu disco. Porém, o roteiro exigia um orçamento que não tínhamos disponível. Pensamos em possíveis soluções e formas de viabilizar o clipe, mas entendemos que as adaptações necessárias poderiam fazer com que a ideia perdesse a sua essência.

Decidimos, então, realizar um clipe para a canção “as nuvens”, que fala sobre solidão, ao mesmo tempo em que evoca imagens de carnaval. nana já havia pensado em algumas referências, mas ainda era necessário criar um roteiro mais elaborado, que unisse os elementos propostos por ela.

 

Roteiro

A associação entre o título da música e o céu é bem direta. Mas, talvez por isso, esse clipe foi o que teve o parto mais complicado de uma ideia. O primeiro conceito que ganhou, antes mesmo do céu, foi o de carnaval, que é citado na música. O carnaval estava estabelecido com dança contemporânea em torno de nana. Uma primeira ideia seria fazer um clipe submerso, aproveitando o movimento natural de roupas e cabelos dentro da água pra criar uma ilusão lírica de vôo, e em volta de nana um carnaval de monstros marinhos. Por razões técnicas e orçamentárias, essa ideia caiu. Na verdade, foi adaptada: sai a imersão aquática, entra o onírico de um céu de nuvens de papel, neblina, dançarinas com plumas e pintura corporal emulando pássaros. Tudo isso num plano sequência e em slow motion (com exceção do sinc labial), pra reforçar o tom onírico do clipe.

Texto por Rodrigo Luna e Pedro Perazzo

Personagens

Como a proposta do videoclipe era recriar um céu, os personagens pensados, além de nana, foram passarinhos que estariam “voando” entre as nuvens. O voo seria mostrado como uma dança, com movimentos que denotassem leveza e liberdade. Desse modo, era importante que as pessoas que fizessem esses papéis fossem, na verdade, dançarinas profissionais.

Making of por João Carlos Sampaio.

Locação

Em “as nuvens”, era de extrema importância que encontrássemos um espaço que atendesse às necessidades não só estéticas, como também técnicas do videoclipe. Como a ideia era construir um ambiente onírico e com limites indefinidos, precisávamos de uma locação com paredes lisas, sem janelas e de cor clara. Já para viabilizar a parte técnica, era necessário que o lugar fosse bastante amplo, para facilitar a movimentação da equipe e elenco durante a realização do plano sequência (gravação sem cortes) que envolvia uma pequena caminhada pelo cenário.

Visitamos alguns locais, como Ciranda Café, MAM, Aliança Francesa, pesquisamos outros como salas de ensaio, e olhamos apartamentos de amigos que possuíssem uma sala grande, mas nenhuma das opções conseguia unir as características que precisávamos: ou eram pequenas, ou tinham janelas/espelhos, ou não tinham disponibilidade no período que precisávamos. Pensamos também em utilizar, mais uma vez, o Teatro do Movimento da Escola de Dança da UFBA, por ser um espaço que já dispunha de equipamentos de iluminação e era amplo. Porém, todas as paredes do espaço eram de cor preta, o que traria custos elevados para tornar o ambiente mais claro.

Por fim, acabamos descobrindo o estúdio do Trapiche Pequeno, que fica no Comércio e foi construído para comportar não só a realização de ensaios fotográficos, mas também filmagens. Além de ser um espaço bastante amplo, com paredes brancas lisas, fundo infinito e estrutura para colocar iluminação e cenário, ainda existia a vantagem de apresentar uma boa infra-estrutura, pois tinha um camarim climatizado, copa e espaço para a acomodação da equipe, elenco, equipamentos, entre outros.

Fizemos uma visita técnica com a equipe e fechamos a pauta para o dia 24 de abril, uma quinta-feira, das 6h às 16h, pois só poderíamos utilizar a locação por um período de 10h.

 

Arte e Figurino

O roteiro dizia algo como “um plano sequência onde elementos fossem aparecendo gradualmente, somando, até a cena final, onde aparecesse a cena completa”. Era um carnaval no céu! Mas não só um carnaval, um carnaval de nana! Suave, pastel, mágico, sedutor.

Os elementos foram surgindo aos poucos, desconexos, nuvens de piñata em tons de azul, verde, rosa; flores penduradas, flutuantes, e uma guirlanda de pequenos botões coloridos fazendo uma cama de gato, unindo todos os elementos. Surgiram também dançarinas pássaros com figurinos fluidos e esvoaçantes, complementados com pintura corporal. Por fim, o último e principal elemento veio como consequência, esse carnaval só poderia estar na mente de uma gata, como foi a caracterização da cantora nana.

Texto por Renata Soutomaior, Diretora de Arte e Figurinista.

Making of por João Carlos Sampaio.

 

 

Maquiagem

Estar nas Nuvens é ter espaço para sonhar e extrapolar limites e o clipe de “nana” permitiu isso. A partir do conceito desenvolvido pela direção de arte, a maquiagem elegeu realizar seu trabalho por meio de fruição (sem croquis) e a opção estética foi pela aplicação de uma técnica mista, muito utilizada pelo “Cirque du Soleil”. Essa técnica consiste em mesclar vários elementos, o que a meu ver favorece a ilusão, foram usadas: maquiagens artísticas, pinturas de plumas, colagens de pedrarias, botões e penas, aplicação de purpurinas, cílios de penas, apliques nos cabelos, tudo entremeado de maneira harmônica, trabalhando com cores pastéis e por vezes saturadas, no intuito de criar esses seres fantásticos pássaros carnavalescos entre a música e a cena. nana por sua vez, teve seu olhar super expressivo apenas realçado e ganhou sardas que brilham, iluminando os passos dessa gatinha que brinca entre os pássaros.

Texto por Nayara Homem, Maquiadora e Cabeleireira.

Making of por João Carlos Sampaio.

 

Fotografia

O videoclipe de “as nuvens” deveria passar a impressão de que os personagens estão em um céu: um ambiente claro, porém difuso por estar preenchido com nuvens. Assim, a fotografia é o setor responsável por construir essa ilusão e chegar no aspecto visual que os diretores pensaram.

O diretor de fotografia, Victor Marinho, fez uma visita técnica no estúdio e pensou em como utilizar o espaço da melhor forma possível. O objetivo inicial era realizar o plano sequência através de um Dolly, no qual o movimento de câmera é realizado com estabilidade, através de um carrinho em cima de um trilho. Porém, devido ao movimento de câmera que foi proposto e pelo fato de ser um plano sequencia, os trilhos acabariam aparecendo na tela. Desse modo, optou-se por trabalhar com a câmera em um glidecam (equipamento que estabiliza a câmera) para conseguir mais liberdade e fluidez durante o plano sequência.

Como a locação não dispunha de nenhum equipamento de iluminação, apenas a estrutura para colocá-la, o diretor de fotografia tinha que pensar em quantos refletores precisaria para iluminar o ambiente e onde eles seriam colocados a partir do posicionamento e movimento das dançarinas e da cantora nana. O trabalho de montagem dessa estrutura não foi tão simples, visto que se tratava de um plano sequência no qual uma série de marcações devem ser feitas e ensaiadas, para que tudo saia como planejado. Desse modo, ensaiamos com o elenco (nana e dançarinas), marcamos os locais onde elas passariam e, assim, foi possível fazer os últimos ajustes nos refletores.

Também é importante destacar a utilização de um equipamento que teve múltiplas funções no videoclipe: a máquina de fumaça. Além de dar a impressão de haver nuvens no ambiente, ela também contribuiu para a fotografia, na medida em que serviu como difusor da luz, que chegou até o elenco de forma mais suave, proporcionando uma atmosfera onírica.

Making of por João Carlos Sampaio.

 

Produção

A produção é o setor responsável por organizar todas as questões e demandas que envolvem a realização de um videoclipe. Desse modo, sua equipe deve estar atenta às necessidades da equipe técnica (direção, fotografia, arte) e do seu próprio setor, para que não falte nada e a gravação ocorra da melhor forma possível.

Para o videoclipe de nana, a preparação consistiu na definição da equipe técnica; encontro com a cantora; elaboração do roteiro definitivo; pesquisa de locação, que foi realizada em espaços culturais, teatros e apartamentos; definição da locação; realização da visita técnica; elaboração do orçamento de trabalho e de um projeto resumido para solicitação de apoios e parcerias.

A partir do momento em que definimos a locação e realizamos a visita técnica, pudemos cuidar de demandas específicas da pré-produção. Desse modo, contratamos uma van para transportar equipe e elenco; organizamos o mapa de transporte com os horários que a van iria passar para buscar cada pessoa; compramos água e lanche (também chamado de manutenção) para equipe e elenco; cuidamos de aluguel e compra de objetos de cena acompanhados pela equipe de arte; entre outros.

A gravação do videoclipe aconteceu no dia 24 de abril e o estúdio do Trapiche Pequeno, local da filmagem, estava disponível para a equipe por um período total de 10h. Como uma das dançarinas tinha um compromisso no final da tarde, optamos por chegar no local o mais cedo possível, às 7h. A equipe de produção chegou um pouco antes para arrumar a mesa para o café da manhã – já que muitos acordaram muito cedo –  e verificar se estava tudo certo no local para a chegada do restante da equipe. Assim, logo que chegaram, os profissionais e elenco foram tomando café e iniciando os seus trabalhos: a equipe de maquiagem foi para o camarim com as dançarinas e a cantora; a equipe de direção, direção de fotografia e direção de arte foram se organizar dentro do estúdio.

Assim que o cenário e iluminação foram montados, foi pensado o trajeto que a câmera faria, levando em conta os posicionamentos dos refletores. A partir disso, os diretores conversaram com as dançarinas sobre o tempo do movimento da dança e alertaram os possíveis deslocamentos que deveriam ser feitos durante a gravação. Pequenos ensaios, inclusive com a câmera, foram feitos na hora para fecharmos os “passos” exatos da câmera a partir da caminhada de nana, sempre relacionada com a entrada e movimentação das dançarinas-pássaros.

Também é importante destacar que, como o videoclipe foi pensado para ser em câmera lenta, tivemos que aceler a música (que acabou tendo a metade da duração original) para a gravação. Assim, no momento da edição, quando a canção fosse colocada em sem tempo normal, a imagem ficaria ‘devagar’. Porém, para que isso desse certo e houvesse sincronia, nana teve que ensaiar a canção mais rápida e foi necessário que levássemos sonorização para que a dublagem saísse de acordo com a música.

Por serem tantos fatores (caminhada de nana, entrada das dançarinas, deslocamento da câmera, dublagem e etc) que deveriam estar em sintonia perfeita, houve a necessidade de se repetir a gravação do take diversas vezes, incluindo aqueles que achávamos que poderiam ter funcionado. Inclusive, esses podem ser perigosos, porque é possível que algum erro passe despercebido na câmera, mas que seja muito mais perceptível na tela do computador – como aconteceu com, pelo menos 3 takes que achávamos que tinha funcionado.

Por volta das 16h encerramos as gravações e demos início ao primeiro passo da pós-produção, com a desmontagem de cenário; desmontagem e devolução dos equipamentos de iluminação e pagamento dos equipamentos, transporte e demais serviços. Logo em seguida, enviamos todo o material gravado para o editor iniciar o trabalho de edição do videoclipe que se resumiu, praticamente, ao Color Granding.

Making of por João Carlos Sampaio.

 

Edição

O Color Grading é uma fase crucial do video, ele que dará aa imagem sua caracteristica peculiar. Nessa fase, também chamada de correção de cor, não só corrige-se a cor e ilumina pontos do video, mas também dá caracteristicas e identidade ao video, definindo como cada cor irá imprimir na tela. No caso do clipe de Nana, fizemos umas três ou quatro versões e possiveis colorações até chegarmos a um resultado final. A escolha foi baseada nas intenções desde a direção do video, mas também levando em consideração os gostos e opiniões da artista.

A busca fundamental da cor foi traduzir a atmosfera do céu proposta no videoclipe, por isso optamos por uma exposição mais alta, trazendo brilhos mais intensos. Predominam no video os tons médios e altos. As sombras foram levadas para uma tonalidade mais azulada. Uma opção trabalhada no video foi pela busca de contrastes pouco acentuados, compondo juntamente com um radial blur nas bordas para conseguir chegar a uma textura onírica, em que as imagens não aparecem de forma tão clara na tela e são pintadas de forma subjetiva através de tons próximos ao branco levemente desfocados e com brilhos difusos.

 

Ficha Técnica

Equipe técnica:

Produção executiva e coordenação de produção: Flávia Santana

Direção de produção: Tais Bichara

Direção: Rodrigo Luna e Pedro Perazzo

Assistentes de direção: Rodrigo Luna e Pedro Perazzo

Roteiro: Rodrigo Luna e Pedro Perazzo

Direção de Fotografia: Victor Marinho

Maquinista/Eletricista: Chico Abreu Lima

Direção de arte e Figurino: Renata Soutomaior

Assistentes de direção de arte: Juan Rodrigues, Carol Morena e Rodrigo Luna

Maquiagem e Cabelos: Nayara Homem

Assistência criativa de Maquiagem: Manhã Ortiz

Color: Victor Marinho

Making of: João Carlos Sampaio

Motorista: Jorge Martins

 

nana

 

Dançarinas:

Helen Souza

Iasmin Salume

Yasmin Tawil

Luana Drubi

 

Agradecimentos:

Wallace Nogueira, Marcelo Matos, Johnny, Helen Souza, Iasmin Salume, Yasmin Tawil, Luana Drubi, Quanta, Marcos, David Campbell, João Carlos Sampaio, Antônio Santana, Carol Morena, Agnes Cajaiba, Jeronimo Soffer, Luna, Zi e Felini.

 

Apoio:

Vogal Imagem